terça-feira, 6 de abril de 2010

Parte 3

POSSIBILIDADES DA COMUNICAÇÃO EM SAÚDE NA INTERNET

A Internet se tornou um veículo tanto de ações do governo, como de ONGs, de profissionais de saúde, de voluntários e de empresas, originando o complexo denominado abreviadamente e-health, ou e-saúde (para eletrônica), o termo mais amplo para se referir ao amplo espectro de atividades usando tecnologias em saúde, cuidados de saúde e saúde pública. Baur, Deering e Hsu (in ASPDEN e KATZ, 2001) popõem o seguinte quadro dessas atividades.



Comunicação Interativa em Saúde - CIS - é o termo proposto por Eng e Gustafson (1999) para se referir à "interação de um indivíduo com ou por meio de um dispositivo eletrônico ou tecnologia de comunicação para acessar ou transmitir informação de saúde ou receber ou prover orientação e apoio sobre um assunto relativo à saúde" (1). Assim, a busca de informação em saúde na Internet, a participação em bate papos virtuais e de grupos de apoio, o envio e-mails para provedores de serviços de saúde são formas de comunicação interativa em saúde. A CIS pode cumprir seis funções específicas, segundo os autores: comunicar informação individualizada; habilitar a tomada de decisão informada; promover comportamentos saudáveis; viabilizar a troca de experiências e apoio mútuo; promover o auto-cuidado; gerenciar a demanda por serviços de saúde.

Para os autores, a comunicação interativa em saúde significa uma série de benefícios para os usuários. Ela aumenta as oportunidades para levantar informações talhadas para necessidades específicas ou características de indivíduos ou grupos de usuários. Melhora as capabilidades de vários meios, combinando texto, áudio, imagens, a fim de encontrar formas específicas a propósitos determinados ou aos gostos dos usuários. Permite aos usuários permanecerem anônimos ao obterem informações, enquanto as pessoas poderiam se sentir desconfortáveis, numa situação pública ou numa discussão face a face. Ela aumenta a disposição dos participantes em discutir sobre saúde, riscos comportamentais, medos e incertezas e amplia o acesso à informação e o apoio solicitado, porque os recursos podem ser usados de forma mais versátil. A CIS aumenta a oportunidade de os usuários interagirem com profissionais de saúde ou encontrar apoio de outros em situação semelhante, através de
e-mail. Finalmente, a comunicação interativa em saúde aumenta a capacidade de disseminação das informações e sua audiência é crescente, com pequeno custo, desde que a infraestrutura esteja implantada.

Mittman e Cain (in RICE, 2001) indicam algumas características da Internet que a tornam particularmente propícia para atender às necessidades dos usuários e organizações de cuidados de saúde:

1 - Baixo custo. Para os autores, o custo mensal dos serviços de provimento da Internet, bem como o custo do computador são pequenos e os usuários ainda podem contar com o acesso cada vez mais comum em bibliotecas e escolas, além do local de trabalho. No entanto, no Brasil, o custo da Internet, pelo contrário, pode representar uma barreira. Apesar de que na classe média a inserção na rede se torna cada vez mais comum, a exclusão digital é um dado importante no Brasil, onde a Internet provavelmente continuará distante das massas por algum tempo. Se tomarmos o custo do ponto de vista dos provedores de informações e de websites, então realmente se aplica a característica: é muito mais econômico criar, manter e hospedar uma página virtual do que fazer uma publicação em papel, por exemplo ou comprar um horário em um veículo de radiodifusão. É esse fato, aliás, que pode explicar o surgimento de um tão grande número de sites de saúde em tão pouco tempo.


2 - Facilidade de uso. Os programas de navegação, seguindo a tendência dos programas pós-Mac e Windows, são intuitivos e não exigem qualquer conhecimento técnico, tornando a navegação e a busca atividades prazerosas porque dão a sensação de domínio: com uma pressão no mouseobtém-se um acesso, às vezes imediato.


3 - Democratização. Antes da Internet, somente grandes instituições tinham condições de disseminar seu ponto de vista, o que agora está acessível a qualquer pessoa, empresa ou grupo de interessados. O resultado, do ponto de vista do usuário, é uma variedade enorme de perspectivas sobre assuntos de saúde. Qualquer pessoa, mesmo um adolescente, pode desenvolver uma página e hospedá-la em um provedor gratuito, aumentando as oportunidades do protagonismo na área da saúde.


4 - Longa distância. O fornecimento de serviços de saúde é inerentemente um fenômeno local, enquanto a Internet é essencialmente um fenômeno global. Isso significa que é possível obter informação médica, aconselhamento de fontes em qualquer local do planeta, contribuindo para a diversidade da informação disponível.


5 - Funcionalidade crescente. A Internet ganha cada vez mais sofisticação e funcionalidade e novos recursos provêm um rol mais rico de capacidades para realizar interfaces e para integração de sistemas de informação de saúde.


A Internet é um meio de comunicação absolutamente singular e extremamente poderoso em comparação com os meios convencionais. É redundante lembrar que ela já é, hoje, um veículo com recursos para gerar interesse visual, pelo uso da cor, da variedade de fontes, fotos, grafismos, movimento (filmes e animações), num ambiente sonoro e interativo. São condições propícias ao planejamento e produção de mensagens atraentes, com fortes atrativos gráficos.

Ao lado desses aspectos formais, é importante destacar a capacidade da Internet de oferecimento quantidades maciças de informação escrita, distribuída ou não em partes, por meio dos enlaces de hipertexto. De folhetos a livros inteiros podem ser baixados em segundos, copiados eletronicamente ou impressos pelo usuário. Trata-se de uma capacidade única que torna a
web a novíssima estrela na pesquisa acadêmica. Na verdade, essa qualidade faz da Internet uma inexcedível biblioteca virtual global, que se atualiza diariamente.

Albuquerque (2002), após um exame comparativo das propriedades dos meios de comunicação de massa em comparação com a Internet conclui:

... o estudo da comunicação mediada pelo computador não pode ser satisfeito pela concepção de "meio de comunicação" que foi consagrada pelo modelo E-M-R (meio como intermediário de um processo de transmissão de mensagens). Ao invés disso, é necessário fazer apelo a uma outra concepção, na qual o meio de comunicação é entendido como um meio ambiente complexo a ser explorado pelos seus usuários. O que está em questão aí não são apenas as mensagens veiculadas através dos meios, ou o modo como elas produzem ou expressam relações (inerentes ou transcendentes ao processo de comunicação) entre emissores ou receptores mas, em grande medida, as relações que tais agentes estabelecem entre si através das tecnologias da comunicação por eles empregadas.

Na mesma perspectiva, a peculiaridade que vemos na Internet como meio de comunicação diz respeito à sua configuração em teia (web), ligando virtualmente todos os pontos entre si, sendo cada ponto potencialmente uma fonte e um usuário. Os meios de comunicação convencionais fazem ou a distribuição da informação (caso de jornais, revistas, cinema, TV a cabo) ou a sua difusão (TV e rádio). Em decorrência da sua configuração em teia, a Internet instaurou um meio único de compartilhamento de informações, ou seja, o acervo da rede é construído coletivamente por milhões de colaboradores, pessoas e organizações, que, em princípio, estão em pé de igualdade na sua colaboração. Essa abertura para as contribuições individuais é que confere à rede a sua riqueza inexcedível, a incrível variedade de formas e conteúdos e sua permanente renovação.

Soares, Murilo Cesar, 2004, Internet e saúde: possibilidades e limitações, Revista TEXTOS de la CiberSociedad, 4. Temática Variada. Disponible en http://www.cibersociedad.net

Parte 2

A PESQUISA SOBRE SAÚDE NA INTERNET

Se é difícil exagerar a importância do impacto da Internet sobre as mais diversas áreas de atividade, por outro lado, os temas de saúde, em particular a pesquisa sobre comunicação em saúde e campanhas relacionadas à saúde coletiva têm crescido em importância na agenda pública. Em consequência, observa Rice (in RICE e KATZ, 2001), a intersecção de ambas tendências criou um novo e fértil campo de pesquisa e atuação para usuários, provedores de saúde, administradores. A Internet renovou as perspectivas para a comunicação em saúde. Enquanto a comunicação de massa deve fazer campanhas falando em geral dos temas de saúde, porque alcança uma audiência heterogênea, a rede de computadores, por ser acessada individualmente, pode responder a dúvidas específicas, oferecendo a informação sobre medida, com o grau de profundidade que o usuário procura.

Em junho de 2003, uma busca por sites contendo a palavra 'saúde' no título, realizada por nós com o uso do motor de buscas Teoma Search, indicou 29.200 ocorrências, o que dá uma medida da rapidez com que, em poucos anos, o assunto se expandiu na rede. Ainda não dispomos de pesquisas sobre a realidade brasileira, mas estudos mostram que nos Estados Unidos há uma tendência de os sites de saúde crescerem em número muito mais rapidamente do que o uso geral da Internet. Quanto ao uso dessas informações, as sondagens trazem números expressivos. Um estudo do Cyber-Dialogue/Internet Health Day, realizado em 1998, revelou que cerca de 52% dos usuários buscaram informação sobre doenças; um terço buscou informação sobre dieta e nutrição, produtos farmacêuticos e forma física; cerca de 15% procuraram informação sobre saúde de crianças. Outro estudo, realizado por Harris Poll, descobriu que cerca de 70% de usuários pesquisaram sobre uma doença ou condição médica, buscando informação sobre depressão (19%), alergias/sinus (sic) (16%), câncer (15%), desordem bipolar (14%), artrite/reumatismo (10%), pressão alta (10%), enxaqueca (9%), ansiedade (9%), doenças do coração (8%), transtornos do sono (8%) (RICE, 2001). Por outro lado, a Fundação Health on Net - HON - em um estudo de 1998 revelou que nas buscas por temas de saúde o número de usuários do sexo feminino superou os do sexo masculino. A área de saúde é uma das poucas em que o número de usuários do sexo feminino é dominante.

Um estudo conduzido por Aspden e Katz (in RICE e KATZ, 2001), em 1997, com 800 usuários de Internet, a partir de uma amostra telefônica nacional dos Estados Unidos trouxe alguns dados adicionais sobre as tendências dos usuários. Quarenta e um por cento responderam afirmativamente à pergunta se já tinham buscado informação médica na rede. A propensão das respostas positivas era maior entre os que tinham mais habilidades de Internet, as mulheres, os brancos, os mais velhos e os usuários mais freqüentes de Internet.

Observou-se, na mesma sondagem, que os que acessam informação de saúde o fazem, em geral, diversas vezes. A maioria desses respondentes disse ter acessado sites de saúde três ou mais vezes no ano anterior à pesquisa: 39% acessaram uma ou duas vezes; 22% acessaram 3 ou 4 vezes; 16% o fizeram de 5 a 9 vezes; 23% procuraram sites de saúde 10 ou mais vezes. As freqüências mais altas eram mais prováveis entre as mulheres e entre os que consideravam possuírem mais habilidades de Internet.

Setenta e três por cento dos que responderam ter acessado a Internet em busca de informação de saúde disseram ter discutido a informação com outras pessoas, sendo que, desses, 50% o fizeram com médicos e outros profissionais de saúde. Os usuários mais prováveis de discutir informações de saúde com outros eram os mais ricos, com maiores habilidades de Internet e as mulheres.

A maioria dos entrevistados acredita no valor da informação da Internet, considerando-as "altamente valiosas", embora um terço deles se declarem cautelosos (classificando as informações como "algo valiosas") e 5% tenham considerado as informações sem nenhum valor. Vinte quatro por cento disseram ter lido informação irresponsável; 27% tinham lido informação enganosa e 31% afirmaram ter lido informações que consideraram muito comerciais. Os que já tinham lido informação considerada irresponsável eram mais críticos. Numa escala de ceticismo, construída pelos autores a partir das respostas, os mais céticos apresentavam maior grau de instrução e maiores habilidades de Internet. Os mais céticos eram também os que mais freqüentemente acessaram informações de saúde e os mais prováveis de discutir essas informações com outras pessoas.

Em 1998, estudo realizado por Aspden, Katz e Bemis (in RICE e KATZ, 2001) focalizou o uso da Internet por 220 médicos de New Jersey. Sessenta e dois por cento declararam utilizar a Internet para fins profissionais, mencionando, em ordem decrescente de importância, consultas a bases de dados bibliográficas, a revistas médicas, e-mail, informação governamental, grupos de discussão, entre outras. Trinta e um por cento dos usuários disseram que a Internet tinha alterado os padrões de comunicação com outros profissionais e 18% usavam e-mail para se comunicar com pacientes. Solicitados a avaliar o impacto geral da Internet no trabalho, numa escala de cinco pontos, 21% dos médicos responderam que tinha sido significativo ou grande; 29% responderam que o impacto tinha sido moderado, enquanto 48% alegaram um efeito insignificante. Três em cada cinco médicos - usuários ou não de Internet - responderam ter atendido a um paciente no último mês que falou sobre informação colhida na rede. Três quartos dos respondentes concordam que os médicos deveriam recomendar sites da Internet relevantes que consideram precisos. Baseados nesses estudos, os autores postulam que a Internet já é hoje, depois de apenas uma década, a maior fonte de informação de saúde tanto para usuários como para os próprios médicos.

No Brasil, Macedo (in GUIMARÃES, 2001) realizou, em 1997, uma investigação com 241 usuários cadastrados da revista eletrônica Saúde e Vida on Line, mantida pelo Núcleo de Informática Biomédica da Unicamp e integrante do Hospital Virtual Brasileiro. Quarenta e oito por cento dos leitores eram profissionais da área de saúde, resultado inesperado, uma vez que a revista é destinada ao público leigo. Esse conjunto de leitores profissionais de saúde declarou consultar a revista por curiosidade pelo funcionamento da divulgação de informações de saúde pela Internet, pela atualidade das informações, pela facilidade de obtê-las, para conhecer as dúvidas dos usuários e para usar os artigos, distribuindo-os aos pacientes ou para conhecer temas de outras especialidades. A pesquisa revelou que a revista era consultada semanalmente por 57% dos leitores, sendo que 97% deles costumavam se informar sobre saúde regularmente (em especial os profissionais da área). A Internet foi mencionada como a principal fonte de informação em saúde por 90% dos leitores; as revistas impressas ficaram em segundo lugar, citadas por 71%; os livros ficaram em terceiro lugar com 66% (o que pode expressar a influência dos profissionais de saúde na amostra); os jornais, em quarto lugar, foram mencionados por 55%; a TV apareceu em quinto lugar, citada por 47%; o rádio foi mencionado por apenas 9% (percentual que provavelmente expressa a raridade de informações de saúde no rádio). A pesquisadora também realizou uma análise de conteúdo das perguntas e respostas aparecidas na seção Pergunte ao Dr., revelando que 39% das perguntas se referiam a um diagnóstico médico anterior, sugerindo que a seção era utilizada como a busca de uma segunda opinião. Embora as respostas evitassem realizar diagnósticos, limitando-se a acrescentar informações adicionais àquelas que o paciente demonstrava ter, despertavam uma reação positiva pelos leitores, o que levou a autora da pesquisa a sugerir que as elas preencham uma carência não apenas informacional mas também afetiva por parte dos usuários.


Soares, Murilo Cesar, 2004, Internet e saúde: possibilidades e limitações, Revista TEXTOS de la CiberSociedad, 4. Temática Variada. Disponible en http://www.cibersociedad.net

Internet e saúde: possibilidades e limitações

Por Murilo Cesar Soares

Este texto apresenta os resultados das pesquisas que analisam a utilização da Internet no campo da saúde, com base na bibliografia, contrastando as excepcionais potencialidades desse novo meio com as restrições que enfrenta. Com base nas experiências relatadas, procura fazer um balanço do estado dos conhecimentos sobre o papel da rede no campo da saúde, trazendo, ao final, sugestões de ações com vistas à otimização do uso da Web nas campanhas de saúde.

Parte 1

A INTERNET E SEUS IMPACTOS

A Internet, ou, mais especificamente, o domínio www, como nós o conhecemos, completou dez anos de existência em 2003. No dia 30 de abril de 1993, a Organização Européia de Pesquisas Nucleares (CERN) apresentou um documento declarando que o programa World Wide Web era de domínio público. No mesmo ano, começaria a se disseminar o acesso à rede.

No Brasil, a Internet só foi liberada para uso comercial em 1995 e teve, como já ocorrera em outros países, um crescimento exponencial nos anos seguintes. Em 2002, levantamento realizado pelo Ibope eRatings mostrou que o número de internautas brasileiros cresceu mais de 50% entre setembro de 2000 e setembro de 2002 (TERZIAN, 2003). Apesar de o Ibope contabilizar naquela data 7,68 milhões de usuários ativos em residências, o total de pessoas com acesso à Internet a partir de casa era estimado em 14 milhões, segundo Alexandre Sanches Magalhães, analista de Internet do Ibope eRatings.com, resultado da soma do número total de moradores de uma residência, sejam eles usuários esporádicos ou freqüentes da web. Mas o número total de internautas brasileiros, somando os que acessam a rede de casa, do trabalho, da biblioteca ou da residência do amigo, poderia chegar a 22,1 milhões de usuários.

Esse crescimento deve ser analisado em vista de dois fatores, um do dispositivo e outro da utilização. Primeiramente, é preciso lembrar que nas casas da classe média há bastante tempo já estava generalizada a ligação telefônica e o computador pessoal já vinha se disseminando desde o início da década de 90. Mas o fator decisivo para a explosão da Internet foi a extrema versatilidade das aplicações da rede de computadores.

Quando as conexões de Internet se estabeleceram no país, eram utilizadas principalmente no meio acadêmico, como fonte de informações científicas, mas essa função rapidamente foi suplantada pelas aplicações do chamado e-business (comércio, bancos, etc), entretenimento, correspondência em geral, jogos, namoro, noticiário, bate-papos, militância em algum movimento, fazendo com que cada usuário visse e usasse a Internet de uma maneira pessoal. Do comércio aos serviços, do ensino à pesquisa, do governo à iniciativa privada, inúmeros procedimentos foram, em curto espaço de tempo, radicalmente transformados pela utilização da rede de computadores. Tornou-se obrigatório ter um endereço eletrônico e as micro-empresas ao se instalarem já exibem um site.